Prosa e mais prosa
Vemo-nos muito raramente desde que a pandemia tomou conta do mundo. Agora, parece que ela vai se acalmando, mas ainda continuo reticente e não me arrisco com frequência para qualquer área que se afaste do quebrar das ondas.
Ontem, porém, tinha algumas coisas a fazer na cidade e pensei em ir até a Casa do Trem Bélico e tomar um café com o Zé Corneteiro, mas lembrei-me que ele só está por lá nos finais de semana. Segui cuidando dos meus afazeres e, aqui por perto de casa comprei a bateria de lítio de que precisava para reposição e reserva, tomei um ônibus que me deixou quase no centro da cidade e fui caminhando sem pressa, observando as velhas construções em decadência e deixando fluir as memórias de minha juventude; “un vieux flâneur”.
Parei em uma banca de camelô e acabei comprando três pares de meias, atravessei a rua movimentada e fui retirar o cartucho de tinta de impressora, que já estava pronto. Dois minutos de prosa na tabacaria de seu Mário e voltei à Rua João Pessoa, procurando uma calça de moletom para usar em casa, pois a que eu tinha acabei dando para um morador de rua em um dia de muito frio.
Embora tenha perdido dez quilos com minhas caminhadas diárias à beira-mar, não é muito fácil encontrar roupas que me sirvam e não apertem. Não me importo com a aparência, mas com o conforto. Entrei em várias lojas, sapeei e não surgiu ninguém que me atendesse; andam quase todos com os olhos perdidos nos celulares.
Atravessei a rua e parei na primeira das lojas, onde a vendedora veio de pronto. Perguntei o preço e como resposta veio um “a partir de tanto”... Agradeci e expliquei que estava fora do meu padrão. Já do lado de fora da loja, a moça se aproximou novamente e me indicou outro estabelecimento comercial onde os preços eram bem mais acessíveis. Agradeci e segui. Fui à loja indicada, fui a outras também, mas foi naquela indicada por ela que eu acabei comprando a calça de moletom para usar em casa.
Agora, cumprido aquele objetivo, era hora de tomar um café em boa companhia. Enveredei pela Rua Riachuelo, espiei pela porta que descortina a longa escadaria do "Doutor dos Brinquedos", toquei a campainha e me escondi. Quando percebi que meu amigo Miguel Escandon já vinha descendo as escadas eu apareci. Ainda sem a certeza de ser eu mesmo, ele veio chegando e só quando estava bem próximo é que comentou sobre a minha diferença de peso e talvez também tenha estranhado os cabelos fora de padrão, sobre as orelhas.
-Só vamos tomar café se eu pagar – digo. Afinal, das duas últimas vezes foi ele quem pagou. Na primeira, porque quis e na segunda porque tinha dinheiro trocado e o botequineiro lhe deu preferência.
Acordado o pagamento, fomos nós até o outro lado da rua, onde ele já é conhecido. Bem, ele é conhecido por toda a cidade, tanto como Miguel Escandon, quanto por Zé Corneteiro. Eu andava com saudades das nossas prosas e, apesar de ele estar trabalhando, ficamos um bom tempo de bate-papo.
Quatro cafés depois, nos despedimos pois ele tinha obrigações de trabalho e as nossas conversas são sem limite de tempo. Um fala mais que o outro e assuntos não nos faltam.
Carlos Gama.
18/5/2022 15:14:38
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