Gente
Quando se usa a expressão “gente”, é possível estar falando de um grupamento de pessoas ou de alguma delas em especial. Neste caso específico queremos falar de gente importante.
Há pessoas importantes em qualquer lugar do mundo, em qualquer ramo de atividade, em qualquer nível social ou cultural, mas a importância a que queremos nos referir é aquela importância que vem do “Ser”, vem do estágio de evolução da alma que habita aquele corpo físico, gente de importância para o universo ao seu redor e que fica marcada perenemente. Gente cuja essência fica gravada no âmago daqueles que com elas têm o privilégio de conviver.
O transporte coletivo em nossa cidade vai de mal a pior, especialmente na quantidade de veículos em circulação e mormente em alguns pontos de parada servidos por determinadas linhas, onde a espera se prolonga usualmente em torno de uma hora. Um desses locais se situa na Rua Galeão Carvalhal, na esquina com a Rua Carlos Affonseca, no coração do Bairro do Gonzaga, um ponto que não tem abrigo e nem bancos para amenizarem as longas esperas por alguma das quatro linhas que passam por ali.
Para mim é um local interessante, porque eu gosto de prosear (sim, percebe-se!) e aquele ponto de sofrimento para a maioria permite que nos aproximemos uns dos outros, que travemos relacionamentos e até amizades, durante as longas esperas e nas conversas ali encetadas. É possível travar conhecimento com um apontador do jogo do bicho a quem você tenha oferecido abrigo debaixo do guarda-chuva, em dia em que o céu desaguava a cântaros; é possível que um genro decida socorrer uma de suas filhas, o avô que a acompanha e ainda oferecer carona para um brasileiro que mora nos Estados Unidos da América...
Certa feita fomos pegos de surpresa por um pé d´água de verão e nos abrigamos sob a varanda que se alongava de um carrinho de pastel. Pedimos licença e fomos ali acolhidos. Com o passar do tempo nos tornamos fregueses dos pastéis do Ed e, mesmo depois do “retorno” de minha companheira à Pátria do Espírito, eu continuei sendo freguês daquelas iguarias preparadas com carinho e da boa prosa que as acompanhava. Quantas vezes perdi o ônibus, por conta do prazer daquela guloseima e das histórias contadas pelo pasteleiro.
Preocupado com as pessoas, esse cidadão colocava duas ou três de suas cadeiras, ali no ponto de ônibus, para amenizar o cansaço de quem amargava as longas esperas. As peças de mobiliário estavam lá para serem usadas por quem quisesse. Ed tinha prazer em servir, coisa especial em um momento em que a humanidade caminha quase essencialmente em busca do servir-se.
Na semana atrasada eu passei por ali - havia tomado o ônibus alguns pontos antes – e notei a ausência do carrinho e, hoje, depois de resolver algumas questões pelo Bairro do Gonzaga, eu me dirigi àquele ponto e novamente não vi o carrinho de pastel. Próximo dali havia um motociclista/entregador e eu me dirigi a ele, perguntando se o Ed havia mudado de ponto.
-Sim, respondeu-me ele. Mudou-se para o céu!
Carlos Gama.
21/5/2022 14:09:22
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